DESABAFO E REFLEXÕES DE UM PREGADOR/PROFESSOR

April 4, 2019

 

 

 

"Partindo eu para a Macedônia, roguei-lhe que permanecesse em Éfeso para ordenar a certas pessoas que não mais ensinem doutrinas falsas,

e que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis, que causam controvérsias em vez de promoverem a obra de Deus, que é pela fé.

O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.

Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis,

querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas." (1 Timóteo 1:3-7)

 

Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor. (Tiago 3:1)

 

Eu amo pregar. É uma das coisas que mais amo fazer na vida. É maravilhoso ver as pessoas entendendo mais da Palavra através do dom e capacidade que Deus te deu. Mas é uma grande responsabilidade. Não é um stand up, não é um monólogo, é a comunicação da Palavra revelada, e por isso, traz grandes responsabilidades.

 

Hernandes Dias Lopes, um dos maiores pregadores brasileiros da atualidade, diz que: “O apóstolo Paulo, o maior bandeirante do cristianismo, fechando as cortinas da vida, na antessala de seu martírio, ordenou a Timóteo: “Prega a palavra…” (2Tm 4.2). Uma coisa é pregar a palavra, outra coisa é pregar sobre a palavra. A palavra é o conteúdo da pregação e a autoridade do pregador. O pregador não é a fonte da mensagem, mas seu instrumento. O pregador não produz a mensagem, transmite-a. O pregador é um arauto; a mensagem não é sua, mas daquele que o enviou. Seu papel não é tornar a mensagem mais palatável aos ouvidos das pessoas, mas transmiti-la com fidelidade.”

 

Por isso nos preparamos. Ou deveríamos. Por isso tenho aprendido que a pregação expositiva protege e educa o pregador para que ele entregue a mensagem com mais fidelidade. Eu nem sempre preguei de forma expositiva. Comecei minha “carreira” de pregador pregando tematicamente. São sermões mais “bombásticos”, mais fáceis de preparar, e infelizmente, mais fáceis de se manipular. O texto analisado expositivamente nos obriga a seguir a sua lógica e não a nossa.

 

Diante de algumas situações recentes doeu meu coração ver a lógica que impera em alguns de “Não fala nada. Ele tá falando de Deus.” Sim, falando de Deus, okay. Mas qual Deus? “Fulano(a) tá pregando o Evangelho.” Pode até ser, mas qual Evangelho? Será o mesmo que os apóstolos pregaram e creram? E NÃO ESTOU FALANDO DE UMA SITUAÇÃO EM ESPECÍFICO, até porque polêmicas brotam todos os dias nas redes, e maus exemplos, infelizmente, não faltam.

 

O problema é que se gostamos do pregador, fingimos que não vemos o desvio sutil da sua pregação. Se a doutrina me favorece e me abençoa, eu não me importo que ela não esteja alinhada com as Escrituras. No mundo da revolução afetiva (Obrigado, Guilherme de Carvalho pelas suas palestras tão relevantes sobre o tema!), o que me governa não são os pressupostos, mas, sim, os meus afetos (que podem ser enganosos).

 

Luiz Sayao, uma das maiores autoridades em Bíblia no Brasil, sempre fala de alguns textos que os crentes adotaram como promessa, e alguns vivem até frustrados porque não as recebem, mas na verdade, aqueles textos nem dizem aquilo, ou não podem ser aplicados daquela forma.

Sayão descreve bem o cenário que vivemos: “O fato é que a igreja precisa achar um ponto de equilíbrio entre quantidade e qualidade. Sem o estudo fundamentado das Escrituras Sagradas, teremos problemas insolúveis a curto prazo em nossa realidade protestante. Infelizmente, ainda há grupos em nosso contexto de fé que desprezam o preparo teológico; há outros que são tão estranhos que vivem na fronteira entre a categoria de seita e denominação.”

 

E ele continua: “Esses exemplos mencionados aqui apenas nos mostram a necessidade urgente e gritante de um conhecimento mais aprofundado da arte de interpretação da Bíblia (hermenêutica). Muitas comunidades cristãs são hoje reféns de doenças hermenêuticas prejudiciais e destruidoras para a fé.”

 

Pregar/ensinar é coisa séria! E pra gente grande! (grande na capacidade de reconhecer seu eterno estado de humilhação diante da palavra revelada!) E chega desse mimimi pós-moderno que ninguém pode corrigir a outra pessoa que está incorrendo no erro. Quem prega, está sujeito a ser corrigido. Aliás, no mundo de hoje, quem faz qualquer post está sujeito a ser corrigido. Vide os exemplos de pessoas demitidas por comentários em redes sociais particulares. Claro que toda e qualquer verdade DEVE SER DITA EM AMOR. (Ef. 4.15) Se for feita de forma saudável e construtiva, é bem-vinda!

 

Gostei da ressalva que meu amigo Mauricio Avoletta Junior fez: “gostaria de deixar duas coisas bem claras. A primeira, é que muitos, devido a um preguiça de estudar a história da Igreja ou até mesmo por desonestidade intelectual, chamam todo e qualquer um de herege e isso sem ter a mínima noção do peso dessa acusação. Há uma distinção muito séria e importante entre um herege e uma heresia. Um herege é aquele crente que, mesmo depois de exortado por um erro teológico grave, não se arrepende desse erro e continua propagando a mesma ideia. Uma heresia, por outro lado, é um erro teológico grave e que pode muito bem, por desatenção ou desconhecimento, ser dito ou formulado por algum crente piedoso e sincero. Nesse caso, o pastor Deive Leonardo, aparentemente, é um crente sincero e, acredito eu, piedoso que, claramente, não é um herege, mas que disse sim, uma heresia.” Essa diferenciação é crucial. Veja: ter o coração sincero não isenta um pregador de ser corrigido.

 

Tim Keller, uma das maiores referências do mundo evangélico contemporâneo, no seu livro “Pregação” diz: “Se você contextualiza o texto demais e compromete o conteúdo verdadeiro do evangelho, você atrai uma multidão, mas ninguém é transformado. Isso é nada menos que uma distorção da tarefa do pregador. Você estará somente ajudando que as pessoas permaneçam no curso atual das suas vidas. Por outro lado, se você contextualiza de menos, a sua comunicação do Evangelho é culturamente desnecessária e ficará longe dos ouvintes, e você descobrirá que ninguém irá querer te ouvir.”

Coloco pra mim uma tarefa como pregador: preciso falar de um jeito relevante, atual e compreensível ao maior número de pessoas possível. Mas preciso ser fiel a uma correta interpretação e aplicação do texto bíblico. Por isso estudo. Por isso me dedico. Por isso oro e peço a capacitação de Deus.

Uma dica de amigo pra você que leu até aqui: não use os clássicos “não julgueis”, “a letra mata”. São expressões de gente que claramente abriu mão de uma aproximação correta do texto bíblico. Esses dois exemplos são claras manifestações de má interpretação bíblica.

Segunda dica: O pregador/professor é responsável pelo que falou e escreveu. Embora ele deva prever a maioria dos cenários de ouvintes/leitores que terá, e tentar se precaver de possível más interpretações, somos responsáveis pelo que dizemos e escrevemos. Não pelo o que os outros entendem. Ou mal compreendem.

Encerro esse textão com as palavras de Tim Keller, que me desafiam todos os dias que penso na dura tarefa de ser um pregador: “Apenas se Deus disser coisas que entristecem você que você saberá que você tem um Deus real e não apenas uma criação da sua imaginação. Então, uma Bíblia autoritativa (o ponto da contradição) não é inimiga de um relacionamento de amor com Deus ( o ponto de contato). É a pré-condição.”

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DICAS DE MATERIAIS PARA APROFUNDAMENTO: (além dos artigos online já citados anteriormente)

 

• Artigos:

Bíblia malcompreendida, problema sério na vida. Luiz Sayao Disponível em https://ibnu.com.br/biblia-malcompreendida-problema-serio-na-vida/

 

A supremacia das Escrituras e a primazia da pregação. Hernandes Dias Lopes. Disponível em http://hernandesdiaslopes.com.br/a-supremacia-das-escrituras-e-a-primazia-da-pregacao/

 

• Livros:

PREGAÇÃO: comunicando a fé na era do ceticismo - Timothy Keller – Vida Nova

 

DEUS NA ERA SECULAR - Timothy Keller – Vida Nova

 

O PASTOR DESCARTÁVEL – Eugene Peterson e Marva Dawn – Cultura Cristã

 

O EVANGELHO NO CENTRO – D. A. Carson e Timothy Keller – Fiel

 

E humildemente, minha contribuição nesse assunto: SEM ATALHOS: em busca de uma adoração autêntica, disponível em www.renatomarinoni.com

 

•YouTube

Palestra “A Revolução Afetiva” – Guilherme de Carvalho – L’Abri Brasil – disponível em https://www.youtube.com/watch?v=AtDpUa087PM

 

Interpretação Satânica das Escrituras - Timothy Keller - https://www.youtube.com/watch?v=SrD4BmcOj7c

 

Texto mal lido, sinal de perigo - Luiz Sayão - https://www.youtube.com/watch?v=ge9_R4SoEV4

 

• Por ultimo, minha pregações estão disponíveis no canal do YouTube da IBNU. Podem ser facilmente encontradas. Ali, tento colocar em prática, com maior e menor grau de sucesso em cada uma delas, os princípios que me norteiam e que eu compartilhei aqui.

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